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Sebos
“Analfabeto não é aquele que não aprendeu a ler. Analfabeto é aquele que aprendeu a ler, mas não lê”, como diz a frase do escritor e jornalista, Mário Quintana. Talvez, essa seja a frase que melhor representa o Brasil hoje. O país em que 30% da população nunca comprou um livro e em que, apenas 50% dela é leitora.
Os dados são da pesquisa de 2016, “Retratos da leitura no Brasil”, realizado pelo Ibope e Inteligência.
Apesar da baixa quantidade de leitores, é mais assustador ainda saber que apenas 11% dessa quantidade possui o costume de frequentar os sebos. Livros novos, antigos, empoeirados, com páginas amareladas, anotações nos cantos das páginas. Histórias e mais histórias mantidas aquecidas por uma prateleira. Um sebo, nada mais é, do que o ambiente criado para guardar e preservar essas memórias.
A origem da palavra sebo tem duas vertentes: a primeira é com a chegada do rei D. João VI, ao Brasil, em 1808. Com sua vinda, diversos itens foram trazidos, incluindo livros. Porém, como ainda não existia energia elétrica, velas feitas de sebo de animal eram usadas como fonte de luz. Contudo, como elas derretiam sobre os livros, ficou a ideia de um “livro sebento”, marcando o nome do local que os mantinha como sebo; outra possível hipótese é o termo da Inglaterra “secondhand book” (livros de segunda mão). Se você pegar as iniciais: “sebo”. É o que explica o pesquisador de livros de 60 anos, Jonas Taucci.
Jonas é funcionário do Sebo do Messias, o maior sebo da América Latina e, sem dúvida o mais conhecido. Ele conta que, o fundador, Messias Antônio Coelho, comprou umas centenas de livros jurídicos de uma viúva, logo após de ter perdido seu restaurante por desapropriação, já que ia ser construído o metrô paraíso. Ele vendeu esses livros e percebeu que havia um bom retorno. Logo começou um sistema de compra e venda, passando a adquirir livros de outros gêneros, como administração e literatura. Hoje, o Sebo compõe mais de um milhão de livros, distribuindo para o Brasil inteiro e até para o exterior, como Europa e Estados Unidos.
O pesquisador até reconhece que a compra de livros online, como o “Estante Virtual”, atrapalhou os negócios de muitos sebos por aí, mas não o Sebo do Messias. “Há um “boom” permanente de vendas de livro, porque se divulga muito também. O nome “Sebo do Messias”, ele tá no inconsciente da pessoa, quando se fala de livros usados. Eu ouço muito o cliente falar assim: “poxa, se no Sebo do Messias não tem isso...”. Então veja, já há um trabalho no inconsciente da pessoa. Falou de livros usados, é o Sebo do Messias.”.
O que é mais interessante no Sebo é sua organização de compra e distribuição de livros. Ele fica localizado na Praça da Sé e a exposição é enorme, com direito a dois andares de estantes complemente cheias, organizados por ordem alfabética. Além disso, há objetos antigos, muito bem conservados que ficam à venda, como discos LP’s, DVD’s, Video cassete, brinquedos antigos, e muitos outros itens que quase fazem do Sebo um verdadeiro antiquário.
O lugar é um prédio velho, pintado de amarelo bem atrás da Catedral da Sé. É interessante que o ritmo acelerado e bagunçado do centro de São Paulo se estende para dentro da loja. Movimentada, cheia de clientes andando de um lado para o outro, procurando aquele livro especial, correndo entre os corredores apertados, enfeitados com os livros tortos, espalhados pelas prateleiras. Os objetos, apesar de bem conservados, guardam aquele aquela aparência de empoeirado e velho, o que harmoniza completamente as arquiteturas antigas do centro da cidade.
O pesquisador também contou que a loja inteira possui um andar no subsolo com uma quantidade ainda maior do que os livros que estão expostos. Estes que ficam guardados são voltados para as encomendas feitas pela internet, já que eles possuem todo um site dedicado para quem deseja encomendar alguma obra.
A variedade de livros é tamanha que há literatura brasileira, livros internacionais, didáticos, ou voltados para alguma profissão específica. Jonas contou que tem de tudo. Porém, uma coleção como essa é preciso um carinho especial, principalmente os livros mais antigos. Por isso, eles são limpos periodicamente, mas sem perder a originalidade, afinal, toda a composição é o que o torna especial. Jonas revelou que a edição mais antiga que eles têm no estoque é de um livro religioso em latim, do ano de 1756.
Toda essa dedicação que o Sebo tem com o leitor, todo esse cuidado com os livros, com o serviço do local, só existe por conta de seus funcionários. A maioria deles usa um avental amarelo, como um uniforme que os caracteriza como especialistas de livros. Eles não apenas sabem onde encontrar cada um dos produtos naquele mar de memórias, mas também sabem indicar aquele livro certo que a pessoa gostaria de ler.
No caso de Jonas, há 16 anos ele saiu de uma multinacional e veio trabalhar em sebos. Ele diz que foi a melhor coisa que fez, afinal, ele ama livros. Para ele, há uma importante gratificação: seus clientes. “Um menino engraxate da Praça da Sé, ele veio aqui e falou “Eu quero o “Meu pé de laranja lima””, cheio de moeda e de nota de dois reais. Talvez essa pessoa, por condições econômico-sociológica, não tem acesso a comprar livros. Mas esse menino com certeza tem um grande potencial de leitura. Poxa, ele foi atrás de um livro, trabalhou o dia inteiro, não sei se ele ficou sem comer, mas ele veio no sebo comprar um livro.”.
O público, em geral, é bem variado: estudantes, jovens, idosos, executivos. Mas todos eles têm uma coisa em comum, são apaixonados por livros. “O que eu gosto nos sebos é o cheiro, a abundância de livros velhos e de pessoas com boas indicações, os livreiros. Eu já tenho muitas metas de leitura, mas eu já saí de um sebo com um livro que eu não tinha a intenção de comprar”, conta a estudante de química, Juliana Gonçalves, de 24 anos.
Apesar de frequentar os sebos há pouco tempo, ela sempre procura tais locais como primeira opção, porém, não gosta quando não encontra o livro que precisa. “Livraria de rede é aquele negócio: se você não encontra em uma loja, tem uma outra franquia que você pode encomendar. Em sebo não, eu vejo eles falando “Eu sempre tenho esse livro, mas hoje não. Volta na semana que vem.”. Às vezes eu volto, e o livro ainda não chegou.”.
Já o Lucas Costa Renó, um estudante de engenharia elétrica de 25 anos, conta que desde que tinha 13 ele frequenta os sebos e, a partir daí, não parou mais. “O que eu mais gosto são os preços e as obras inusitadas que eu encontro quando procuro bastante. Uma vez achei um livro traduzido em português que estava esgotado em todas as livrarias do Brasil. O cara podia ter cobrado bem caro, mas acho que ele não manjava da raridade e vendeu por 20 conto”.
Ele conta que, quando vai comprar um livro, faz uma pesquisa de preço. Ele não descarta as livrarias tradicionais, já que procura se certificar de que não tem um livro novo saindo com o mesmo preço de um livro de sebo. Contudo, o estudante acredita que alguns locais não valorizam muito seus produtos usados. “Eu não gosto do preço que pagam quando vou vender um livro meu. Dificilmente é um valor que vale a pena. Muitas vezes eu entrego no sebo mais por doação do que por dinheiro”.
Lucas conta que mais frequenta o sebo Sant’Ana e o sebo Passagem Literária. O interessante deste último é que ele fica localizado em um espaço público, debaixo da Rua da Consolação. Isso mesmo, debaixo da rua. O local é como uma espécie de túnel, decorado com grafites, colagens, desenhos coloridos nas paredes, funcionando como uma espécie de atalho para quem quer atravessar a movimentada rua.
A dona do estabelecimento, Odette, que se identifica como uma artista, conta que a passagem era um espaço abandonado, cheio de lixo. Foi o subprefeito Andrea Matarazzo quem ajudou ela a manter o local, realizando uma parceria e, em troca, o túnel deveria ficar limpo e bonito. Contudo, a Odette fala que o acordo ainda depende muito de quem é que está ocupando a prefeitura. “E hoje a passagem é um lugar de acesso, um lugar razoavelmente limpo, porque a população acaba não colaborando. A gente faz tudo pra manter o lugar legal.”.
A passagem é mais do que um sebo. O lugar todo é decorado com artes de voluntários que se colocaram a disposição apenas para mostrar seu trabalho. De um lado do túnel há uma exposição de fotografias. Do outro, uma parede de vidro que protege esculturas de muitos artistas. Além disso, a pluralidade de gostos artísticos canta junto com as músicas que a Dona Odette põe para tocar, geralmente uma bossa nova tradicional, ou um bom jazz clássico.
Uma vez por mês há a exibição de um filme, geralmente produzido por universitários, ou de alguma pessoa já conhecidas. No final, fazem uma discussão sobre o tema. A passagem é conservada pela Odette, mas também por mais quatro companheiros seus, que estão todos os dias se revezando para manter a Passagem.
“Começou com um projeto em 2005, porque a gente vendia livro na rua. Aí a polícia veio com violência, prendeu, levou todos os livros. A gente foi parar na delegacia por conta dos livros. Eu sempre tive amor, de fazer com que as pessoas tenham melhor acesso de livros. Ainda em 2018 tem gente que tem vergonha de entrar em uma livraria, então sempre trabalhei com essa coisa do acesso ao livro, para todas as classes.”.
As obras foram os verdadeiros heróis na vida de Odette. Ela conta que todas as faculdades que ela fez foi paga com o dinheiro de suas vendas, afinal, trabalha com isso desde que tinha 17 anos. “Hoje nós vendemos menos por conta de tudo que ta aí. Um pouco depois veio a “Estante virtual”, e todo mundo migrou para lá. Mas ao mesmo tempo isso é legal, porque um cara do Pará pode acesso a livros daqui. Já enviei livro até para o Amazonas.”
Todo o material que ela consegue para compor as estantes da Passagem são adquiridos por meio da compra de livros selecionados pelos cuidadores do local, além de claro, das doações por parte dos paulistanos. É interessante que a maioria dos livros são antigos, mas todos eles estão encapados em pequenos plásticos, não só para evitar a poeira e fuligem da Consolação, mas para preservar essas histórias do passado.
Por isso, não é a toa que vemos essas pessoas de São Paulo, em luta para manter memórias antigas, protegendo um legado, um conto, ou uma crônica que, um dia, pode transformar a vida de alguém, assim como tantos livros mudaram a vida dessas pessoas. É como nosso velho colega, Jonas, declamou: Se vocês forem numa prateleira e olharem um livro e falaram “Esse livro é muito bonito”, tenha certeza que os livros do lado vão sentir ciúmes. Os livros são ciumentos, gostam de estarem limpos, os livros gostam de serem lidos. Eles têm uma vida.”.



















